As fronteiras invisíveis – ou não

Motivada pelas notícias sobre a questão da independência da Catalunha, me vi, após uma rápida pesquisa sobre o assunto, conduzida para o blog Xadrez Verbal que apresenta uma série de artigos muito interessantes, sob a categoria de “As fronteiras invisíveis da Europa”, e para um artigo em particular, datado de novembro de 2014 e relacionado com a Alemanha, tema principal deste blog.

O título dessa série chamou minha atenção, pois aborda a problemática das fronteiras invisíveis, isto é, as fronteiras por vezes étnicas, outras vezes religiosas, sociais e culturais, que distinguem povos e regiões geográficas. No referido blog, encabeça a lista o artigo mais recente intitulado “Alemanha e um balanço da reunificação”. É desse artigo que pretendo destacar e comentar alguns trechos.

O autor Filipe Figueiredo, graduado em História pela USP que também se interessa por áreas como política, esportes, comida e música, destaca as discrepâncias ainda presentes entre os estados que compuseram as antigas Alemanhas Ocidental e Oriental. Digo “ainda”, pois já se passaram quase 30 anos desde sua reunificação, processo iniciado com a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. Mesmo com o aporte de milhões de euros para a reconstrução dos estados do leste alemão, as diferenças econômicas, culturais e sociais persistem.

Em nossa viagem pela Alemanha, em 2013, percebemos algumas dessas discrepâncias. Mas, como tudo na vida, também nessas circunstâncias há prós e contras. Percebemos, por exemplo, que as pessoas com as quais tivemos contato parecem mais tranquilas, ingênuas, quase puras, comparadas com seus compatriotas na região oeste. Ou terá sido pelo fato de serem habitantes de cidades menores, essas por onde passamos? Não podemos saber exatamente…

Voltemos ao artigo. Por meio de dados estatísticos, o autor observa outras diferenças gritantes, como o PIB desigual e o declínio da população nos estados da antiga Alemanha Oriental, que tem como principal causa a migração do leste para o oeste verificada logo após a queda do muro e motivada por questões familiares ou econômicas.

Apesar dos investimentos maciços nos meios de transporte e na construção e modernização da malha rodoviária e ferroviária, propiciando maior e melhor integração entre o leste e o oeste, o resultado permanece aquém do esperado. Outros índices, como o nível de desemprego e a renda familiar média, também continuam em desequilíbrio. (V. mapa a seguir)

Fonte: Departamento de Estatísticas Federal da Alemanha – Destatis. Arte: Gene Thorp/ The Washington Post. Traduzido.

Por outro lado, há ainda entre os habitantes das regiões a leste hábitos e tradições adquiridos na antiga República Democrática da Alemanha, como a questão da vacinação da população (as campanhas eram obrigatórias), a menor produção de lixo (menor consumo e reutilização do que é reciclável), a quase totalidade das crianças em creches, entre outros.

Fonte: Departamento de Estatísticas Federal da Alemanha – Destatis. Arte: Gene Thorp/ The Washington Post. Traduzido.

Fonte: Departamento de Estatísticas Federal da Alemanha – Destatis. Arte: Gene Thorp/ The Washington Post. Traduzido.

Essas diferenças sociais e culturais levaram, segundo o autor do artigo, ao movimento conhecido como “Ostalgie”, palavra alemã que se refere à nostalgia pela vida na antiga Alemanha Oriental (Wikipedia), que resgatou símbolos e valores da antiga Alemanha Oriental, como o carro mais famoso, o Trabant, o refrigerante fabricado na Turíngia que vende mais que seu concorrente conhecido mundialmente, o “Ampelmännchen”, sinal luminoso para pedestres, entre outros objetos. Por outro lado, está presente na população um extremado repúdio ao regime socialista e a todos os seus símbolos.

Ainda foram apresentados neste artigo vários outros índices que comprovam inequivocamente que continua existindo uma sutil fronteira. Invisível aos olhos, porém perceptível.

O autor aborda também a questão do poderio militar e de armamentos, cujos limites, em sua opinião, foram providencialmente assegurados, por ocasião do Acordo de Reunificação, em 1991, assinado pelas duas Alemanhas, pela França, pelos EUA e pela antiga União Soviética.

Muito ainda há a se fazer. No entanto, não se pode negar que o país tem sido incansável no esforço de eliminar as diferenças entre o leste e o oeste alemão que ainda persistem, sejam quais forem os motivos…

 

(Fonte: www.xadrezverbal.com/2014/11/17/fronteiras-invisiveis-da-europa-alemanha-e-um-balanco-da-reunificacao/