Die andere Heimat, de Edgar Reitz: Crónica da “crónica de uma nostalgia” – 3

(continuação)

1. Crónica:

O termo implica desde logo uma intenção narrativa muito particular, que deixa de lado o “filme histórico” para se situar num plano épico de perspectiva pessoal e fundo humano, dando a ver, na transparência da vida quotidiana, uma problemática (a grande vaga migratória numa Europa depauperada e em muitos casos oprimida pela nova ordem instaurada depois de Napoleão), um tempo (o de uma fase decisiva, de transição do ancien régime, não para regimes liberais, mas ainda de passagens várias entre impérios e casas reinantes) e um mundo (o do caso paradigmático de uma aldeia e de uma família apanhados nestas teias da História). O resultado é um filme que se move com grande saber dramatúrgico e fílmico entre a ficção e o documentário (que nunca chega a ser propriamente), entre uma saga familiar e a grande saga da História posta diante do espectador através de uma série de destinos privados e cruzados. Ou seja, um filme com traços e momentos épicos (a grande caravana dos carros dos emigrantes no final, a lembrar John Ford, a respiração ampla dos grandes ciclos, nascimento e morte, poder político e condição humana), e com um fundo ético e humano. Focando ainda mais a objectiva, vemos um filme que se serve do simbolismo (ou sentido quase parabólico) das situações individuais, que ganham um estatuto representativo em relação a um estado de coisas muito mais amplo, o da situação histórica da Alemanha e da Europa entre revoluções (respira-se este estado de coisas em algumas das figuras masculinas). Não propriamente a grande Revolução Francesa (que não deixa de ecoar no grito de Liberté! no final da primeira parte), mas outras, mais próximas, as revoluções de Junho de 1830 em Paris, e as revoluções de Março de 1848-49, um pouco por toda a Europa (a acção do filme concentra-se entre as duas, nos anos de 1840 a 1843).

 

2. Uma outra “pátria“:

É quase inevitável a relação com a longa série televisiva anterior de Reitz, em três partes e com 52 horas de projecção, e que cobre, também a partir de histórias familiares da mesma região, a história do século XX, entre 1919 e a viragem do milénio. E a ligação faz-se por essa palavrinha carregada de história e de ideologia, Heimat (era este o título geral das séries). Perguntamo-nos: onde está a diferença, onde reside a “alteridade” desta nova “pátria”? Visto hoje, este novo filme traz um olhar crítico sobre o tempo histórico da “miséria alemã”, tal como o viram Marx e Engels no tempo da narrativa, e que irresistivelmente associamos ao da Europa de hoje. Mas a outra Heimat do novo filme é mais do que isso: vem lembrar-nos que nós somos hoje, em grande parte, o que começou naquela época histórica, filhos degenerados de um liberalismo que na sua versão “neo” se tornou egoísta e desumano, e que as Luzes que se tinham acendido pouco antes em França entrariam num irreversível processo de “dialéctica negativa” que deu no que deu. Pelas perversões da História e pela ingenuidade dos povos. Isto percebe-se na primeira parte do filme, no episódio da festa do fim das colheitas e na rebelião que se segue. Os gritos de Liberté!, e o outro, mais especificamente alemão, de “Viva a Jovem Alemanha!”, são testemunhos dessa sã e fatídica ingenuidade: os tempos não estavam ainda prontos para a Liberté, que, atirada assim á cara dos gendarmes, só podia ter como resultado a prisão. Marx e Engels, ou mesmo a “astúcia da razão” de Hegel, não tinham ainda chegado à região do Hunsrück, onde tudo se passa. E cá fora, a “Jovem Alemanha” era, então, ainda a versão romântica e idealista – que poderia ter os seus paralelos com os nossos Maios de ’68 – de uma liberdade que começava a dar os primeiros passos. Os ideais democráticos e proletários viriam depois, para também eles soçobrarem, deixando atrás de si (depois de 1848, ou de 1968) aquele travo de “liberdade de bobos da corte” que é novamente a que nos concedem nas democracias formais do nosso descontentamento. Estava longe, e continuamos sem a descortinar, aquela outra liberdade de que por essa altura falava o poeta exilado, autor do longo poema Alemanha, um conto de Inverno, Heinrich Heine. A sua liberdade, “Freiheit, die ich meine” (“a liberdade em que penso, e que é a minha”), não era a pequena liberdade de uma esmola dada a contragosto, mas a outra, a liberdade plena e responsável. Nesses anos, mais exactamente em 1833, publicava Heine em livro uma série de crónicas de teor político explosivo para a época, de onde a censura prussiana cortou, entre muitas outras, a seguinte passagem – que parece ter ido escrita para este país e este continente nos dia de hoje:

“Nunca um povo foi mais cruelmente desprezado pelos seus governantes. Não é só o facto de aqueles decretos partirem do princípio de que podem fazer connosco tudo o que quiserem. Não, ainda nos querem convencer de que o que está a acontecer não nos traz dolo nem injustiças. Mas se é certo que vocês podiam contar com o conformismo servil, isso não vos dá o direito de fazer de todos nós idiotas. Uns quantos senhores da terra, que mais não aprenderam do que uns truques para domar cavalos (…), com que, quando muito, conseguem enganar os campónios nas feiras, acham que podem com isso dar cabo da vida de um povo inteiro, ainda por cima um povo que inventou a pólvora, a imprensa e a Crítica da Razão Pura. Este insulto, o de nos querer fazer passar por mais estúpidos do que vocês próprios e de imaginar que nos podem iludir, é o insulto mais baixo a que nos submetem perante todos os povos vizinhos.”

(continua…)

(Fonte: Jornal de Letras, Artes e Ideias, Portugal)